quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cães, gatos e tigres asiáticos

Arte: G. Steps



Naquela manhã de inverno intenso, os cães se aproximavam como gelo que se quebra, movimentos trincados ao sabor da névoa espessa. De cada caverna urbana o vazio se fazia com a revoada dos cães de rua; a rua magnética suprimia o aconchego da má noite.

Eu procurava mover-me pouco, para não espantá-los, o espetáculo e a preguiça. A cada três minutos um bocejo sonoro, ar quente devorado na manhã faminta, de calor, de som, de imagens, sobretudo de movimentos.

Estivesse à procura de paisagem para pincelar, mudaria apenas o bonito e moderno prédio da esquina próxima, com seus vidros inflacionados e desenho a la Tigre-Asiático-montado-no-dinheiro. Suprimiria o prédio e incluiria uma sapataria, um salão de beleza e um bolicho seria demais, seria demais.

Há mais ainda o cão de raça desafortunadamente à janela, janela bonita, mas de raça o cão; também mudaria, por um gato, ainda que de raça, pois mesmo puros os gatos são impuros, e apropriados para aquela manhã de inverno intenso. Quem sabe um gato à janela não assustaria os ratos que, ingressando no quadro, seriam bem vindos, mesmo que espantados, corridos, que para isso é que existem.

Mas a manhã se vai, a neblina se vai, os personagens se vão, o olhar do sol se apura e depura, eu sofro mais a cada instante, sou varrido da calçada por quem de direito, meu olhar perde a sensibilidade que o olhar sem sensibilidade não sentia. Levanto e sigo a passos arrastados na direção do poente, lugar que nos aguarda, a mim e meu olhar.

Edson Júlio Martins
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